EP14: A armadilha do rendimento
Como fugir de armadilhas rentistas e porque você nunca deveria copiar o que os outros investidores fazem.
Este é um artigo com finalidade educacional que não constitui, de forma alguma, recomendação de investimentos. Os ativos citados no texto são usados apenas como exemplos de caráter ilustrativo. Para investir, consulte um profissional da sua confiança, certificado e credenciado. Espero que todos tenham aproveitado bastante a virada do ano com suas famílias e tenham muitos negócios bem-sucedidos em 2026.
Vamos pensar que você recebeu uma “dica quente” para investir o seu dinheiro: lhe ofereceram dois investimentos diferentes, o Investimento A e o Investimento B. Ambos são atrativos e rendem mais do que a Selic, que está atualmente (17 de Janeiro de 2026) em 15,00% ao ano.
O Investimento A tem rentabilidade de 55,00% ao ano;
O Investimento B tem rentabilidade de 24,57% ao ano.
Ambos parecem valer a pena, pois prometem mais do que a Selic. Em qual deles você colocaria o seu dinheiro?
Pense um pouco mais agora. Eu quero que você seja sincero(a)…
A grande maioria das pessoas escolheria o Investimento A sem hesitar. Afinal de contas, oferece quase o dobro do Investimento B, um raciocínio completamente lógico.
E se lhe dissesse que nem sempre a maior rentabilidade gera a maior renda? Isso poderia provocar um nó na cabeça de muita gente. Como isso é possível?
Isso é natural e vou explicar para você o motivo de por que isso acontece. A verdade é que é muito difícil de se tomar qualquer decisão sobre investimento sem levar em consideração os fluxos de caixa que ambos os investimentos produzem. Para ilustrar isso, veremos a tabela a seguir:
Considere que você tivesse investido R$ 100.000,00 em cada uma dessas opções.
O Investimento A, no final de 5 anos, devolveria o que você investiu, gerando R$ 34.782,61 em excedente de caixa no valor presente.
O Investimento B, no mesmo período, devolveria o capital investido, gerando R$ 49.153,02 em caixa excedente, no valor presente.
Como pode o Investimento B ter sido a melhor opção se a rentabilidade era menos da metade do Investimento A (24,57% versus 55,00%) e ainda demorou muito mais tempo para gerar o fluxo de caixa prometido?
Sempre fomos ensinados a buscar rentabilidade alta e a acreditar que o dinheiro hoje vale muito mais do que o dinheiro no futuro. Mas os números muitas vezes contradizem afirmações superficiais e falta de uma melhor investigação nos investimentos...
A resposta nem sempre é tão intuitiva: o Investimento B tem uma capacidade muito maior de gerar fluxo de caixa do que o Investimento A.
Certos investidores experientes tomam decisões aparentemente inexplicáveis, contrárias ao senso comum. Um exemplo é um conhecido investidor de dividendos, meu vizinho, que há muitos anos investe em AESB3 (AES Brasil). A empresa sofreu uma fusão com a Auren (AURE3) e os números não parecem bons para as casas de análise e bancos: um dividend yield (DY) pífio, de menos de 1% ao ano, alavancagem alta e rentabilidade nos últimos 5 anos de -62,86%. Recuperou um pouco o seu valor com a alta recente da bolsa, mas o preço de suas ações chegou a algo em torno de R$ 9 no ano passado.
Ainda assim, ele continua firme e forte, sistematicamente aumentando a sua posição… O que ele sabe que os outros não sabem?
Essencialmente é o que nós discutimos aqui:
Ele conhece a empresa e entende que as perspectivas para o futuro são boas; a aquisição gerou uma dívida a ser paga em alguns anos, porém a companhia tem um bom controle e está num setor razoavelmente previsível (o setor de geração é pior que o de transmissão, mas os efeitos climáticos podem ser previstos com algum esforço) - trata-se de uma situação ruim puramente conjectural;
Está investindo com expectativa de bons fluxos de caixa futuros.
Compromete parte ínfima de sua carteira, assumindo um risco calculado. Se as expectativas se frustrarem, perderá pouca coisa; por outro lado, se tudo der certo, obterá valorização e um fluxo atraente em dividendos para o longo prazo.
Apesar do Investimento B ser melhor do que o Investimento A em resultado financeiro, há um risco implícito perigoso: o investidor precisará esperar mais para receber esse fluxo de caixa e quanto mais distante, maior é o risco.
O pequeno investidor precisa ter muito cuidado com esses exemplos, nunca copiar a carteira e as movimentações de outros investidores mais experientes, pois eles vivem numa realidade diferente: muitas vezes possuem acesso a bons relatórios de análise, membros do conselho de administração nas companhias, além de excedente de caixa suficiente para essas operações mais arriscadas. Você nunca deveria guiar-se por uma mentalidade meramente rentista ou copiar o que os outros investidores profissionais fazem, pois pode se expor a um risco desnecessário, em que uma perda expressiva pode acabar com anos de esforço e trabalho árduo. Tenha muito cuidado e consulte sempre um profissional qualificado ao investir.
Um abraço e até a próxima!
Rogério



